Ela estava atrasada. Viu na plataforma um ônibus parado. Correu o mais que pode, deu tempo. Ofegante ainda, passou a catraca e reparou que tinha vários lugares vazios. Estranho. Todo mundo desistiu da faculdade? Todos os dias, a normalidade exigia que fosse espremida por tantas pessoas. Hoje não, até podia escolher onde sentar. Desastradamente, sentou empurrando a mochila para cima do rapaz ao lado. Um pouco sério, ele perguntou:
- Isso é para afastar as pessoas?
Pronto, alguém querendo briga, ela tinha certeza. Pediu desculpas, e se ajeitou no banco.
- Não, não, eu falo dos monstrinhos na sua mochila. Faz certo tempo que queria perguntar isso.
Nesse ponto as coisas começaram a soarem estranhas. Certo tempo? Ela tinha certeza absoluta de que não conhecia o rapaz. Ignorou o comentário, e apenas disse que não.
- Você estuda na FFLCH, né? Letras, 3˚ ano.
- É! Você anda me seguindo? Sei lá, que assustador. – Ela
demonstrou um pouco de perturbação, fez menção de se levantar. Ele tocou no seu braço:
- Não, por favor, espera! Não estou te seguindo. Nossa! Isso é surreal. Você não tem idéia. Por favor, me escuta. Eu te explico tudo.
Ela permaneceu sentada. De verdade mesmo, não tinha sensação de perigo, estava já curiosa. Defeito seu, ou qualidade, ninguém sabe ao certo.
Ele estava animado, falando rápido, sem pensar direito. Espontaneidade pura. Ela conseguia ver que aquele era o momento, ao menos para ele.
- Quando você entrou no ônibus, eu percebi que essa era a minha última chance de falar com você. Última e única! Nossa! Nossa! – ele sorri nervosamente, olha para a frente, olha para ela, parece tentar recobrar o juízo, impossível. – Eu te admiro há 2 anos. Ufa! Falei. Você não faz idéia do que é isso. Nossa. Louco. Louco. É, há 2 anos te vi passando pelo prédio da Sociais. Foi impossível esquecer seu olhar de perdida. Bixete. Pouco tempo depois, nos cruzamos mais uma vez, agora perto na entrada do prédio da Letras. E bem, foi assim. Eu te via sempre. Na Letras, na Sociais, na ECA. Quantas festas eu não passei te cercando, olhando e olhando. Você até sorria. Claro não era pra mim. Sorria com seus amigos. Que sorriso lindo, eu fingia que era meu. Até fora da USP nos encontramos. Bandeijão. Nossa, tantos lugares! E eu ficava ensaiando uma forma de falar com você. Quantas vezes me preparei. Quantas vezes… Sabe? E hoje. Hoje. Hoje. Dois anos de espera.
Ela mal podia acreditar no que ouvia. Realmente, tudo aquilo era surreal. Não tinha nada para falar, a única coisa que podia fazer era ouvir. Parecia que ela devia isso a ele. Simpatia.
- Hoje, eu totalmente despreparado, você senta ao meu lado. Eu nunca mais vou te ver, sei disso. Estou me mudando essa semana. Ah, como eu esperava para poder te ver. Como eu te esperava. Teve até um dia em que eu tomei toda a coragem que eu tinha e caminhei na sua direção, quando estava chegando perto, um cara te beijou. É… foi aí que eu descobri que você tinha começado a namorar. Perdi as esperanças, não chegar em você agora. O que eu podia fazer, e no tempo em que eu deveria ter feito, não fiz. Perdi, fazer o quê? Fica tranquila. Só precisava te contar. Precisava mesmo.
Ela ainda estava imóvel, sem saber direito o que pensar, ou dizer. Mas agora era a sua vez de falar. O que, afinal? Nunca percebeu a presença dele, mas de uma coisa ela sabia, era um momento sublime para ele. Sublime. Ter aquilo que você esperou por tanto tempo, era sublime. Mesmo quando “ter” era teórico. Ali, o que ele tinha era uma confissão, apenas.
- Olha, eu não sei mesmo o que te dizer. Não sei e não sei. Realmente nunca te vi, nunca te reparei. – ela mexe na aliança,
lembra de que também foi uma admiradora secreta de um alguém. Lembra que esperou, que sentiu o mesmo que esse rapaz, ao contar tudo. E lembra mais ainda que se sente sublime por ser a admiradora não secreta, mas eterna do seu alguém, da sua aliança.
- É, não teria mal nenhum ter falado comigo antes. Eu gosto de fazer amigos. – Se calou. O olhar dele doeu. Ela sentiu ali sua
sorte, sentiu ali sua incapacidade perante esse outro. Sorriu, o amor é mesmo assim, já não falaram que existem 3 pessoas desconhecidas no mundo que nos ama? Ela tinha acabado de conhecer uma delas. Ela amava só um.
Ele ainda mostrava todas as suas emoções, tudo a flor da pele. Seus olhos doíam. Seu coração estava inteiro, partido. E ele estava alegre. Estranho, não? Mas ele estava alegre por tudo isso.
- Só preciso te pedir mais uma coisa, só uma coisa, tudo bem? É, eu estou namorando já, estamos felizes até, ela me ama. Eu também a amo, eu sei que sim. É, o que eu quero mesmo te pedir é que não se esqueça de mim, sabe? Não se esqueça de que por 2 anos você foi importante para um desconhecido. Você foi a mais linda para ele. Você foi motivo de alegria e paz. E você nem sequer sabia disso, você apenas sorria. Se você nunca se esquecer disso, eu vou conseguir manter essa felicidade que estou sentindo nesse instante, porque afinal, isso é muito louco.
Ele se levantou, deu sinal. Sorriu, um pouco trêmulo, parecia não se conter. Antes de partir, falou:
- Você continua sendo essa alegria.
Ela se manteve em silêncio. Meu Deus, o que foi isso? Pensava atônita. Teve dó do rapaz, mas logo reconheceu que esse era um sentimento humilhante demais. Pensou rapidamente em tudo, e só um sentimento permaneceu. Simpatia.
Pegou seu celular, discou um número, em poucas palavras ela resumia o que tinha aprendido naquela ocasião:
- Ei, amor! Te amo.