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Tudo, pelas Letras.

Tudo da poesia de dentro de mim.

Incerto.

há pouco saí da fila do pão, já sei quem sou e sinto minha alma envolta em incertezas. abraçada ao escuro do novo, ao frio na barriga, eu vejo leveza. eu vejo paz. pode tudo dar certo e dar errado. paz. o desassossego agora vem de olhos brilhantes, é desassossegada que eu quero viver.

 

Sobre ser.

Quem sou eu na fila do pão? E nem falo de amor. Quem me vê, sabe que eu me perdi. Sabe que eu nem tento me encontrar. Não é nada de mais, eu sei onde estou, não sei quem sou. Me perdi no tempo, dentro do espaço. Me deixei ir e me segui. Soltei meu eu pelo meu pão. E todo dia na fila, eu já nem sei. E quem me vê, não me vê mais. Sou só mais alguém na fila do pão. Só mais alguém que se perde. E não quero me achar. Ou quero, mas quero o pão também. E sei. É tarde demais.

 

 

Alguém me disse…

e eu não ouvi.
não quis.
o pé na estrada,
a mochila nas costas,
o sol nos olhos,
e no ouvido, som nenhum.
alguém disse,
mas não ouvi.
som disperso.
aqui fora é assim,
o mundo é tão grande que a gente ouve
quando quer.
e eu não quero te ouvir.

Apenas.

Algumas coisas,
A gente diz.
Mas não é sempre.
Tem vez. Tem hora.
Não tem.
Algumas coisas,
A gente sente.
Mas não sorri.
Tem vazios, tem lágrimas.
Silêncios.
Algumas coisas,
A gente faz de conta.
E conta, reconta,
E mente.
Tão sempre.

Nada mudou.

Como o quarto é vazio.
Como faz falta o riso.

E mesmo assim, nada mudou.

A geladeira está mais fria.
A janela mais fechada.

E mesmo assim, nada mudou.

No chuveiro já não se canta mais.
As panelas estão limpas.

E mesmo assim, nada mudou.

A cópia da chave dentro da gaveta.
E dentro de mim, nada.

mudou.

Suando.

Eu pedalava sempre com um livro na mão. Às vezes uma história de amor, às vezes algum sofrer.
E pedalava firme. Uma mão segurava o guidão, a outra presa ao livro. Na minha cabeça eu subia montanhas, arrastada pelas letras que seguiam enfileiradas dentro daquelas páginas. No espelho eu via só uma moça suada na bicicleta ergométrica. E pedalava. E lia. E era levada. E sorria.
Era como se eu estivesse sozinha naquela sala quente com cheiros desagradáveis. Pessoas suam. Eu também suava. Lia. Sofria. E como sofria! 5kg na bicicleta, 1h de jornada. Mas o livro amenizava. E eu quase não sentia. Algumas linhas e eu já não estava ali na sala, eu subia montanhas, atravessava estradas, cruzava fronteiras.
Na bicicleta ergométrica eu me permitia passos largos, passagens pelas terras dessas minhas histórias. Sentia o vento do ventilador como o tufão que levava embora as casas daquela vila lá, virando a esquina. E chorava meu suor para mostrar aquele povo minha compaixão. Ouvia a música alta no fundo como o som do tráfego, e as pessoas levantando peso como a construção em frente à casa da mocinha trancada dentro de si. De mim.
E continuava a subir. Os cabelos molhados me levavam para a noite chuvosa, no meio do nada, de onde ele se foi. E lá eu vi, de pernas cansadas, a solidão jogada, chorar quase sem fôlego.
Pedalava assim, viajando de uma página para outra, até ouvir o beep agudo, que me acordava feito aquele despertador odioso de segunda-feira. E eu voltava para a sala, marcava a página, fechava o livro. Do rosto, tirava as provas do meu passeio, e sentia o cheiro do real, vindo de mim. Porque pessoas suam, lembra?

Dá é liberdade…

Me contaram, certo dia, que fazia bem um passeio noturno, bem naquelas noites de lua cheia. Saindo um pouco sem rumo. Mas eu queria saber se não dava medo. Meio paulistano é assim, um pouco paranóico, um tanto apavorado. Daí que disseram que não. Que medo o que! Dá é alegria, dá é liberdade…
E vai eu, todo prosa tentar também, afinal né, se me contaram…
E saí.
Já deixo claro, não saí sem rumo. Minha organização, meu perfeccionismo não me permitiram. Até o telefone do taxista eu tenho no cel, vai que…
Decidi passear por perto, no quarteirão mesmo do meu bairro. Ia ser uma primeira experiência segura, que de aventura eu não aprecio nem o nome.
Foi fácil, pensando nos detalhes:
Peguei o casaco, as luvas, um gorro, e quase ia me esquecendo do cachecol. Documentos, e dinheiro também. Estava pronto para uma pequena volta no quarteirão.
Desci as escadas do prédio. Oito andares. E elevador? Tem, mas e se quebra? Estraga meu passeio, e eu ainda corro perigo. Quem nunca teve medo do tal do mesmo, né? Desde criancinha eu tinha.
Já na rua, senti o vento frio. Tudo bem, já tinha deixado o suco de laranja com uma aspirina preparado para quando eu voltar.
Dois passos para frente. Reavaliei o caminho, decidi se seguiria na direita ou na esquerda, e pronto, pé na rua, mentira, na calçada sempre, e atravessar só na faixa.
Segui pela esquerda, sempre seguia por ali quando ia trabalhar ou estudar. Já conhecia até as pedras, os buracos, o gramado, tudo que rodeava o ponto de ônibus. Porém, dessa vez, nada de ônibus. Era na sola mesmo. Dobrei a esquina, vi a padaria ainda aberta, vi o jornaleiro prestes a fechar e vi três rapazes fazendo nada. Meu frio aumentou. Meus passos aceleraram apenas um pouco. No meu curso de segurança, o professor falou que nunca se deve mostrar desespero ou medo em uma situação de perigo. Depois de alguns bons passos, já não percebi mais a presença dos rapazes. Meu coração desacelerou, e a vida ficou mais bonita, mais segura.
Andei mais um pouco. Já tinha calculado no google maps, cada rua do quarteirão tem exatamente 1,3km. Eu já deveria ter andado cerca de 2km. Fui pensando na vida, pensando no que me disseram e começando a achar que era verdade. Fazia mesmo bem um passeio noturno.
Um pouco antes de dobrar a próxima esquina, vi uma rua muito iluminada, que parecia dar para dentro do quarteirão. Era tão iluminada que parecia que era dia ali ainda. Olhei, olhei, e olhei. Pensei que talvez fosse uma idéia boa entrar por ali. Estava mais bem iluminada do que a rua principal e eu cortaria caminho. Enquanto pensava, ponderava, imaginava os prós e os contras de entrar naquela rua desconhecida, percebi que alguém se aproximava de mim. Virei espaventado, quase nervoso. Qualquer tipo de aproximação em plena noite, na rua ainda por cima, me deixa desconfiado.
Vi uma senhorinha muito frágil, com muitos pacotes que mal conseguia andar. Ela sorriu. Eu, gentileza em pessoa, daqueles que não sabem resistir quando alguém frágil precisa de auxílio, perguntei se poderia ajudá-la. Seu sorriso de simpatia mudou, e percebi certo desconforto e também desconfiança. Essa era das minhas. Ela me perguntou o que eu fazia por ali, e falei que apenas passeava, quando me deparei com aquela rua iluminada. Ela voltou a sorrir e disse que morava logo ali, me entregando um dos pacotes.
Caminhamos um bocado, e nesse tempo não falei nada, muito menos ela. Quase no final da rua, que era sem saída por sinal, encontramos sua casa. Ela, agradecida, me convidou para tomar um chá, assim eu me esquentava um pouco. Não tive tempo de dizer não, pois ela já tinha entrado, deixando as portas abertas e os pacotes no quintal.
Entrei. A casa era bela, se sentia um cheiro de lar, uma sensação de tranquilidade. Vi pelos aparadores fotos. Crianças rosas, gorduchas, e na parede principal, um enorme quadro de um homem idoso. Deveria ser seu falecido marido.
Ela voltou com o chá, e nos sentamos. O silêncio continuou. Para quebrar um pouco, resolvi comentar algo sobre as fotos. Ela sorriu tristemente, mas nada falou. Se manteve calada, enquanto eu, já inquieto, buscava algum argumento para tratar. Estava abrindo minha boca e pretendia perguntar onde estavam aquelas crianças quando ela me olhou seriamente e disse que além de aprender a passear, eu precisava aprender a me atentar ao silêncio.
Fiquei desconcertado. Terminei o chá, e ela me despediu. Agradeceu mais uma vez a gentileza, e abriu a porta. Saí. Retomei meu caminho para a rua principal pensando na tristeza que deveria ser perder alguém que se ama. Por isso eu nunca tinha amado. Não suporto perder, e sinceramente, para que sofrer tanto depois, sozinho, jogado, vivendo de lembranças? Eu acho desnecessário. Acho mais desnecessário mesmo se entregar para alguém, colocar suas esperanças em outra pessoa.
Decidi fazer o caminho de volta, já tinha tido bastante aventura naquele passeio. Voltando vi que a padaria já estava fechada, os três rapazes não estavam mais por lá. Caminhei com calma, dentro dos meus pensamentos. Pensando onde estavam a alegria e a liberdade que me disseram. Passear à noite só me deu cansaço, e uma senhora triste me dizendo que preciso me atentar ao silêncio.

Pra quem deixou saudade.

que coisa essa vida, né?
vai e vai, e um dia a gente procura,
e vida nem mais tem.
-ah, mas deixa de bobagem menina!
vida não se acaba assim não
vida pode parecer que se foi de vez,
mas foi é ali pra um canto,
pra esperar o dia certo da gente se encontrar.

*Pra você, Su. Uma forma de te abraçar aqui de longe.

Quase tranquilo.

Um pouco do breve respiro,
que leve suspiro
me fazia olhar o mar assim,
quase tranquilo
sentindo vibrar dentro de mim
ondas levantadas pelo vento
e que suaves,
vinham trazer o gosto salgado
das noites em claro
que você costumava passar lá na prainha nossa,
cantando no breu,
só para enganar a brisa
histórias de amor
daquelas que a gente bem se lembra,
bem da gente,
e sinto na onda
seu pé molhado,
roçar o meu.

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